Em greve nacional, entregadores brecam saída de pedidos em shoppings na capital paulista

Nesta terça-feira (1º), segundo dia do breque nacional dos entregadores, trabalhadores de aplicativo bloquearam a saída de mercadorias por delivery de grandes shoppings de São Paulo (SP). Foram fechados os pontos de coleta dos shoppings Eldorado, Center 3, TriMais Places, Tucuruvi, Santana Park, Morumbi, Bourbon e West Plaza. A ação integra a mobilização nacional de 48 horas iniciada na segunda-feira (31) pela categoria em cerca de 60 cidades.

Em efeito cascata, o serviço de entrega de comida por aplicativo foi paralisado em outros centros comerciais da capital paulista, como Jardim Pamplona, shopping Continental, Market Place e Interlagos.

Um levantamento da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de São Paulo (Abrasel SP) entre seus associados apontou que “empresários que operam unicamente com o iFood tiveram queda de 100% nas entregas via delivery durante a paralisação. Já aqueles que utilizam múltiplas plataformas sentiram um impacto menor, mas ainda expressivo, com queda no movimento do delivery estimada entre 70% e 80% na comparação com uma segunda-feira comum”.

A estratégia de brecar pontos estratégicos de São Paulo foi definida depois que, nesta segunda-feira (31), cerca de dois mil entregadores foram em protesto até a sede do iFood em Osasco (SP) e receberam uma negativa às suas demandas.

A reivindicação principal da greve é o aumento da taxa mínima por corrida de R$ 6,50 para R$ 10. Além disso, os trabalhadores de app demandam que a remuneração suba de R$ 1,50 para R$ 2,50 a cada quilômetro rodado; a limitação de entregas feitas em bicicleta a um raio de 3 quilômetros ; e o pagamento integral por corrida mesmo quando pedidos são agrupados na mesma rota.

Em São Paulo, as pautas foram apresentadas ao iFood em uma reunião fechada dentro da empresa após horas de pressão com milhares de entregadores e um carro de som na porta, nesta segunda.

Depois de negar o pedido de que um representante da gigante do delivery fosse conversar com o conjunto dos manifestantes, o iFood aceitou que uma comissão de grevistas entrasse para uma reunião, desde que escoltados um por um pela Polícia Militar e que a conversa não fosse gravada. João Sabino, diretor de Políticas Públicas do iFood, e Johnny Borges, diretor de Impacto Social da empresa, receberam e negaram as reivindicações dos trabalhadores. Embaixo de chuva, os manifestantes convocaram, então, a organização por região de paralisações nos principais pontos de coleta nesta terça.

Segundo dia breque nacional dos entregadores, em 1 º de abril de 2025. Foto: Gabriela Moncau/Brasil de Fato

“Aqui está brecado, não sai nada”, afirma, com um sorriso, a entregadora Fernanda Neri em frente ao ponto de coleta do restaurante Z Deli, na avenida Rebouças. Na frente da loja, a faixa “Heróis na pandemia, escravos no dia a dia”. “Eles dizem que o pagamento é justo, mas a realidade é outra”, ressalta, ao lado de outros grevistas.

“O iFood e os demais aplicativos nunca colocam na mesa o que cada um de nós passa no dia a dia. Porque, quando um de nós se acidenta, é do nosso bolso que sai. Eles só querem saber do lucro e nós, motoboys que colocamos nossas vidas em risco, não somos valorizados”, relata Genilson Soares, que trabalha com entrega há três anos.

“Estamos reivindicando uma coisa muito básica. O faturamento do iFood é exorbitante enquanto o motoboy luta para trocar um pneu dessa moto aqui”, aponta Genilson. “O aplicativo paga mal, a gente tem que comer, tem família, tem filho . E o que o aplicativo está fazendo com cada um que está aqui é uma pura covardia. Por que eles não dão a cara, não vêm aqui encontrar quem realmente está na rua? Não é sindicato nem ninguém, é quem está na rua aqui, com a cara queimada. Lá no escritório, com ar condicionado, eles não sabem o que a gente vive. Nunca vão saber, irmão”, diz.

Entregadores contestam dados das empresas de app

Procurada pelo Brasil de Fato, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Abomitec), que representa empresas como o iFood, Uber, Lalamove e 99, informou que “respeita o direito de manifestação”. A entidade disse que, segundo um levantamento do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), a renda média dos entregadores “cresceu 5% acima da inflação entre 2023 e 2024, chegando a R$ 31,33 por hora trabalhada”.

O número é contestado pelos trabalhadores. “São mentirosos. Porque só consideram como hora trabalhada quando você está com o pedido na bag. Ou seja, o deslocamento de volta depois de deixar o pedido no cliente, o tempo logado no bolsão à disposição do app, é desconsiderado. É um dado manipulado para dizer que motoboy ganha bem. São covardes”, rebate o entregador Renato Assad.

O iFood disse à reportagem que reafirmou “sua abertura ao diálogo” ao receber os representantes dos manifestantes nesta segunda-feira e que “retornará com devolutivas para as lideranças.”

Para Assad, “mais uma vez a balela. Mais uma vez ‘veremos, veremos, veremos’. Depois de não nos oferecerem nada na reunião, decidimos manter e brecar vários pontos da cidade”, conta o entregador: “Não vamos dar sossego para seu Diego Barreto [CEO do iFood], nem para a Rappi, nem para a Uber, nem para a 99. Porque esse novo tipo de proletariado está se dando conta do poder que tem quando se une”.

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